Essa é uma das perguntas que mais tenho feito em consultório nos últimos meses, e não apenas ali. Essa questão também tem surgido em muitos outros espaços que frequento.
Percebo que, com frequência, as pessoas cuidam e se preocupam demais com o outro: com o que o outro precisa, se está tudo bem, se suas necessidades estão sendo atendidas. No entanto, quando o olhar se volta para si mesmas, muitas vezes não conseguem sequer identificar suas próprias preferências, desejos ou necessidades.
É como se o hábito de olhar para fora tivesse sido tão fortalecido que o contato consigo mesmo tivesse se tornado secundário, quase esquecido.
E talvez a pergunta mais importante não seja apenas “como está o outro?”, mas também: “como eu estou?”, “do que eu preciso?”, “o que eu gosto?”, “como me sinto?” Se reconhecer também é um ato de cuidado.
Quando não nos conhecemos o suficiente, e nos importamos em demasiado com o outro, se torna muito fácil aceitar simplesmente o que nos dão. E podem nos dar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Restos de qualquer coisa. E nós ficamos bem com isso, desde que o outro esteja bem. Mas aí eu te pergunto: está tudo bem mesmo?
Porque, quando nos acostumamos a ocupar sempre o segundo lugar, a abrir mão do que precisamos para garantir o bem-estar do outro, começamos a acreditar que qualquer migalha é suficiente. E, dependendo de onde você está hoje, talvez me responda que sim. Talvez diga que está tudo bem. Mas será que está?
Acontece que nos conformamos. Com o tempo, nos acostumamos até mesmo com aquilo que não nos faz bem, com situações dolorosas, relações desgastantes e realidades que, no fundo, gostaríamos de transformar. Mas, se você chegou até aqui, talvez isso queira dizer alguma coisa. Talvez queira dizer que nem tudo precisa continuar como sempre foi.
Dar um passo à frente, em direção ao desconhecido, é possível. E sim, pode ser desconfortável. Mudanças costumam ser. Mas, muitas vezes, esse desconforto não é maior do que aquele que já carregamos ao permanecer exatamente onde estamos. Às vezes, o primeiro passo não elimina o medo. Apenas nos mostra que existe algo além dele.
Uma coisa eu tenho certeza: isso depende de você. Depende da sua escolha de mudar, de se priorizar, de voltar o olhar para si com mais cuidado e gentileza. Depende de reconhecer que você é a sua própria companhia mais constante e que, por isso, merece ser tratado com respeito, acolhimento e amor. Depende de acreditar que é possível conquistar aquilo que deseja, mesmo que o caminho pareça longo ou incerto. Mas como?
Começando aos poucos. Questionando padrões que já não fazem sentido. Reconhecendo suas necessidades, seus limites e seus desejos. Permitindo-se errar, aprender e recomeçar quantas vezes forem necessárias.
A mudança raramente acontece de uma vez. Ela é construída em pequenas escolhas diárias. E, muitas vezes, tudo começa quando você decide que merece mais do que apenas sobreviver às circunstâncias e passa a se comprometer com a própria vida.
Comece trazendo boas afirmações para o seu dia a dia. Em vez de dizer coisas como “eu estou um caco” ou “só faço coisas erradas”, experimente se dirigir a si mesmo com mais gentileza e encorajamento, como: “eu sou capaz” ou “eu dou conta”.
Mesmo que, no início, isso não pareça totalmente verdadeiro, continue tentando. As afirmações negativas, muitas vezes repetidas ao longo do tempo, acabam sendo internalizadas e tomadas como realidade.
Por isso, é importante lembrar que também é possível construir novas narrativas internas, mais saudáveis e fortalecedoras. O que repetimos para nós mesmos influencia a forma como nos percebemos e como interpretamos o mundo ao nosso redor. Muitas vezes, passamos a enxergar mais facilmente aquilo que já faz parte do nosso campo de atenção e experiência.
Assim, ao mudar o que você diz a si mesmo, você também começa a ampliar as possibilidades de como se vê e de como pode se posicionar diante da vida.

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